Há dias, em Matosinhos, os meus colegas da maior associação empresarial do imobiliário francês  (SNPI) que aceitaram o meu desafio e escolheram o Porto para palco da respectiva reunião magna anual, puderam visitar as instalações da Pinhais & Companhia, uma empresa de referência nas conservas de peixe, e ficaram clara e positivamente surpreendidos com essa visita nomeadamente quando, entre outras descobertas, testemunharam um dos mais conseguidos e tradicionais métodos para controlar a qualidade das conservas.

Na Pinhais, onde há dias em que a produção pode chegar às três mil latas de conserva, todas as latas, todas as latas sem excepção, são “ouvidas” por funcionários de ouvido apurado, já no fim do processo de fabricação e depois de terem passado pelas regras habituais das exigências do controlo de qualidade, para, pelo som que produzem quando duas latas batem uma na outra, cumprir um teste extra de procura de latas estragadas, mesmo quando se sabe que essa possibilidade é altamente improvável.

Para que os visitantes possam compreender a diferença, há, naquela secção, uma lata estragada (das raríssimas que são detectadas) que ao bater numa outra produz aquele som indesejável e revelador de condição imprópria. Pela quantidade, insignificante em termos percentuais e em termos absolutos, qualquer lata ali apreendida nessas condições inadequadas não belisca a reconhecida qualidade daquelas conservas portuguesas de referência, cuja produção está quase toda garantida na exportação.

Claro que é importante continuar a manter este teste extra. Como é importante fazer tudo para que todas as pessoas que procuram os trilhos da Natureza na Ilha da Madeira (turistas ou habitantes locais), universo que num ano ultrapassa um milhão, o possam fazer em segurança e não entrem para o pequeníssimo número de pessoas que sofrem acidentes nessas caminhadas, mesmo que a média dos piores acidentes raramente atinja as cinco vítimas por ano e quase sempre por desrespeito das regras de segurança.

Uma lata estragada não estraga a qualidade das conservas, nem um acidente muito grave, e como tal a justificar que se faça ainda mais para o evitar, a confiança que devemos continuar a manter na Proteção Civil e nos serviços de Turismo da Madeira. Por maioria de razões, é também inaceitável que eventuais suspeitas da eventual existência de corrupção na atribuição de vistos gold sirvam para precipitar julgamentos primários e sumários, que põem em causa princípios básicos do Direito, numa cruzada que mais parece desencadeada para inviabilizar projectos que podem ser positivos para a Economia Portuguesa.

Transformar uma árvore, que até pode nem existir, numa floresta ou declarar a morte da Primavera porque morreu uma andorinha  (sabe-se lá de quê) são radicalismos perigosos cuja falta de transparência é, comprovadamente e até prova em contrário, mais grave do que os supostos e eventuais ilícitos ou crimes que alegadamente estarão a ser denunciados. Na prática, estas fórmulas de actuação lançam dúvidas e minam a confiança que é necessário manter, ampliando, quando não distorcendo, a própria realidade.

Luís Lima
Presidente da APEMIP
luis.lima@apemip.pt

Publicado no dia 11 de junho de 2014 no Público

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