Nem mais. Quando o mar bate na areia quem paga é a classe média. Talvez, com mais rigor, deva dizer, quem tem pago é a classe média. E é isto que confirmo, olhando e vendo um interessantíssimo video, de menos de três minutos sobre classe média, que um semanário de referência em Portugal colocou no respectivo espaço da informação digital, tornando atraente uma  menos doce leitura dos dados estatísticos.

Fixo, por exemplo, a ideia final desta leitura feita a partir de uma frase do Dr Fernando Rocha Andrade, Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, proferida numa estação de rádio, em Fevereiro do corrente ano – na última década e meia, todos os governos iniciaram funções ou com um aumento de dois pontos na taxa normal de IVA ou um aumento brutal no IRS. Quem não pertence ao pequeno grupo dos ricos sofre mais.

Portugal – sublinha-se no trabalho apresentado pelo jornalista Pedro Santos Guerreiro – não chega a ter onze mil ricos, considerando o limiar da riqueza na declaração mínima anual ao fisco de 80 mil euros de rendimentos. Portugal, país onde a maioria dos portugueses também não chega a pagar impostos por insuficiência de rendimentos e onde o ganho médio mensal real (base mais extras) não chega aos mil e cem euros.

São, realmente, muitos “não chega”, o que parece comprometer a esperança de mudança, nomeadamente para aquela fatia a que chamamos de classe média. A que sempre sofre os aumentos de impostos. A classe que urge defender e alargar, nomeadamente entre nós, se quisermos que realmente haja crescimento e desenvolvimento equilibrados e, a longo prazo, um menor fosso social. 

É preciso defender aqueles cidadãos contribuintes que sempre foram (e em muitos casos particularmente por via do acesso à propriedade que habitam, o que desaconselha os anunciados aumentos de IMI) a coluna vertebral do crescimento de muitas economias mas hoje deixaram de ser a prova de que a chamada terceira via – entre o capitalismo selvagem e o socialismo colectivista – poderia funcionar como terá funcionado em alguns países da Europa do Norte.

Estatisticamente, em 2015 quase 15% dos portugueses que tinham trabalho estavam em risco de tornar-se pobres. E isto afectava a própria ideia de classe média, o exército que alimenta, como então lembrava, o movimento dos museus, o público dos teatros e das salas de música, os frequentadores dos restaurantes de boa qualidade e até os leitores de certas revistas e de certos jornais, bem como o negócio dos carros de gama média alta, ou o negócio das viagens turísticas.

Voltando a citar-me, lembro que muitos destes portugueses suspeitam estarem a ser olhados pelos filhos como um fardo pesadíssimo, situação agravada quando os filhos, grande parte da geração portuguesa mais qualificada de sempre, estão fora do país e sem vontade de regressar. Confirmando assim a suspeita de que a classe média está perder terreno e a vontade de reencontrar os caminhos do crescimento e do desenvolvimento equilibrados.

 

Luís Lima
Presidente da CIMLOP
presidente@cimlop.com

Publicado no dia 22 de Agosto de 2016 no Jornal i

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